domingo, 3 de janeiro de 2010

"Do contrário, privada de algum propósito que lhe desse forma e sustentação, o esqueleto de seus dias desmoronava por completo." Nabokov

O sono, que já me era pouco, tornou a me abandonar atrozmente. À medida em que cresce meu descontentamento comigo mesma, diminuem minhas horas de descanso, numa proporção desarrazoada, em que sempre estou perdendo feio.
Olho-me daqui de cima e tudo o que vejo é um corpo desconhecido, interte e entregue a todas as coisas que me aniquilam...
- Faz tempo que não choro, e está tudo depositado aqui, sufocando-me. Todas as dores da vida viram manchas na minha pele, escondem-se por sob as minhas roupas, e é quando me dispo que elas me vestem. Nua, sinto sua lastimosa verdade, entranhada em meu corpo, que comprime o exato espaço entre meu peito e minha garganta.
...
Se eu gritasse, quem sabe assim tiraria o sono de cada um, um por um, e com eles tramaria um sono para mim.

- Que ânsia! Anseio pelas minhas lágrimas que não vertem! Preciso chorar um pouquinho...

ALGUÉM, FIRA-ME, POR FAVOR!
Despudoradamente, deliberadamente, magoe-me! Presenteie-me com toda a sua ignomínia!
Mareje-me os olhos e leve embora o gosto de morte dos meus lábios...leve embora, lavando-os de lágrimas.

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